Sinóptico no BBB 12

Postagem : 5 de fevereiro de 2012

No século XIX, era o Panóptico de Jeremy Bentham, com o modelo arquitetônico, que inspirou as penitenciárias da época. Era uma forma de vigilância com monitoramento, em uma torre, em volta das selas, que se sustentavam em formato circular. Isto quer dizer que um ou poucos, em um contexto físico, vigiavam os presos que não sabiam em que momento poderiam ser observados. Sendo assim, os encarcerados obedeciam, em tempo integral ao poder da vigilância, para não sofrerem retaliações.
Na Sociedade do Espetáculo, do século XXI, a constituição dos sujeitos é feita, na visão do sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, com apoio no Sinóptico. Com as tecnologias da pós-modernidade, há uma nova postura social: muitos observam poucos. Para melhor entendimento, é o inverso do Panóptico em que um vigilante observava muitos cidadãos.
Uma nova forma de aprisionamento, baseada no Sinóptico de Bauman, em que muitos observam poucos, é o Big Brother. A frenética e extensa platéia de espectadores, não está em um espaço físico, como no Panóptico de Bemtham. Uma multidão, em ambientes fluidos, com as novas tecnologias da informação, observa poucos. Um número reduzido de possíveis futuras celebridades, instalado em uma casa considerada a mais vigiada do Brasil, está ali, sendo acompanhado pelo imenso público.
O ridículo se expõe ao vivo e em cores, em horário nobre, com a exposição de corpos sinuosos de cidadãos, com roupas provocantes, fazendo prevalecer o ‘ter” e não o “ser”. O estímulo ao uso do álcool é evidente, assim como as posturas antiéticas de convivência interativa. Este mix faz a platéia histérica acompanhar o dia-a-dia, inclusive, alguns até fazem questão de pagar um extra, para terem o privilégio de vigiar as cenas mais íntimas da chamada novela da vida real.
O Sinóptico estimula esse contexto. As cenas, presentes, nas telas de todas as dimensões e modelos, retratam não apenas o visual dos “aprisionados”. Predomina, além de toda sedução visual, a decoração dos ambientes, estrategicamente escolhida para atrair mais espectadores de todas as camadas sociais. O resultado global é a impactante perda dos valores éticos, sociais, de solidariedade e respeito ao companheiro. É assim que a mídia estimula a construção dos sujeitos contemporâneos e o exemplo de como ganhar prêmios na vida.
E mais: o apresentador do programa faz um gestual, matematicamente calculado, que pode até parecer despercebido para a platéia: logo quando as luzes se acendem para iniciar o programa, há um cumprimento ao público: flexiona um dos joelhos para trás, tentando assim, reverenciar-se aos espectadores, que devem dizer Amém. Depois desse cenário tórrido de sedução, a emissora ainda pôs, em pauta, há poucos dias, uma cena de um possível estupro na casa onde estão os considerados “Brothers”.
Em um país emergente, com a economia em destaque internacional, cujo crescimento se torna visível, não se pode retratar a mediocridade de pensamento e ser testemunha de um circo midiático de horrores éticos. Podemos continuar protestando, pelas redes sociais o malfeito e exigir o bem feito com mais fiscalização aos empreendimentos televisivos estimulados pelo capitalismo.