Mazela globalizada

Postagem : 26 de maio de 2020

A pandemia do novo coronavírus é uma doença sem precedentes na memória do sistema imunológico humano. Dessa forma, a propagação dessa enfermidade é veloz e agressiva, atingindo, inclusive, os indígenas. Logo, analisa-se que a invasão do espaço ocupado por esse grupo social ameaça, não apenas sua cultura, mas também a vitalidade, frente ao contato com doenças transmitidas pela sociedade.

Primeiramente, é válido retomar ao período da descoberta do Brasil. Nessa época, o contato entre povos estrangeiros e nativos permitiu a contaminação destes por enfermidades desconhecidas às células de defesa do corpo dos aborígenes. Exemplos dessas doenças é a gripe e a tuberculose, que acabaram matando milhares de índios, sobretudo por conhecerem apenas tratamentos de saúde por meio de recursos culturais ou próprios da natureza. Diante disso, é possível dizer que os homens que vivem em aldeias ou tribos, frente à atual pandemia têm a possibilidade de sentir como é ter a vida ameaçada por uma mazela sem estratégias de combate específicas.

Em continuidade à histórica invasão do habitat dos povos nativos, destaca-se a exploração da Amazônia por garimpeiros, agricultores e extrativistas. A par disso, a visualização do lucro em detrimento do bem-estar indígena é de difícil combate, perante a frequente ilegalidade nas atividades econômicas do aproveitamento florestal. Aliado a isso, a escassez de recursos para que haja a repreensão daqueles que persistem em usufruir das áreas de preservação é um grande obstáculo enfrentado pelas organizações de proteção e apoio à vida amazônica, como a Funai, a Fundação Nacional do Índio. Logo, compreende-se que o desrespeito aos limites exploratórios põe em risco, não só a vitalidade da floresta, mas também a dos habitantes que sobrevivem dela, principalmente, frente à possibilidade de contaminação do novo Covid-19.

Sob essa ótica, evidencia-se a necessidade de respeito às comunidades indígenas, sobretudo o cuidado com a propagação de doenças para esses povos. Diante disso, é crucial o investimento do Estado em recursos de fiscalização e preservação da vida nativa, de forma a evitar a invasão dos habitats desses grupos. Outro contribuinte à vitalidade desses povos ameaçados é a conscientização popular, uma vez que a sociedade é capaz de exigir das autoridades que não ocorra a exploração agressiva, nas regiões em que abrigam os aborígenes, como a Amazônia. Nesse ponto, a escola e a mídia devem funcionar como eficazes veículos de conhecimento e informação sobre os impactos causados à vida dos nativos. Por fim, lutar contra a invasão do espaço dos índios é zelar, não só pela cultura, mas também pela saúde destes, principalmente, em um contexto delicado de pandemia e desconhecimento de profilaxias específicas ao novo coronavírus. Portanto, precisa-se ter noção de que o Brasil não pode persistir no erro de contaminar os índios com mazelas da sociedade globalizada e alarmar aqueles que foram, historicamente, os nossos antepassados.

Autora: Victoria Calil. Aluna do Centro de Escrita Regina Magalhães.

Tema: Coronavírus alarma povos indígenas.